A adolescência acabou

By André Takeda

John Hughes foi o meu James Joyce. O meu Machado de Assis. O meu Velvet Underground. O meu Sex Pistols. Eu nunca quis ser um escritor de verdade. Para ser bem honesto, desde a adolescência sempre tive essa certeza de que queria ser apenas um contador de histórias. E os filmes produzidos, dirigidos e/ou escritos pelo John Hughes eram como estes shows de rock que você vê quando tem 15 anos e sai com essa sensação urgente de ter uma banda.

Eu já era fã de Curtindo a Vida Adoidado quando a minha irmã Karina me levou com o seu namorado para assistir a Garota de Rosa Shocking, lá no cinema Vitória no centro de Porto Alegre. A abertura do filme, ao som de Pychedelic Furs e com as pernas de Molly Ringwald, foram como dois ou três minutos que definiram a minha vida. Saí do cinema querendo ser o Duckie. Saí daquele filme querendo escrever um conto sobre a minha paixão não correspondida pela Ana Elisa (uma personagem-pessoa real que, inclusive, aparece no Clube dos Corações Solitários). Saí daquele filme fã de Psychedelic Furs, The Smiths, Otis Redding e New Order.

É muito provável também que desde aquela noite eu tenha vivido em uma certa adolescência constante. Já se passaram mais de vinte anos, casei, tenho um bom emprego, estou pensando em ter filhos, mas sinto que ainda tenho um pouco do Duckie dentro de mim. E do Keith de Alguém Muito Especial, que às vezes se deixa levar pela futilidade quando o que precisa está ali na sua cara. E do Ferris, que sabe que é bom chutar o balde de vez em quando.

A notícia da morte de John Hughes é muito mais do que motivo de tristeza para mim. É como se todos aqueles anos escrevendo nos meus cadernos, blocos e na minha velha Olivetti voltassem em um grande sopro. Estou aqui, à frente do meu computador, mas consigo lembrar exatamente como era o meu quarto aos 15, 16 anos, com cartazes do Echo & The Bunnymen na parede, discos de vinil por todos os lados, quadrinhos Marvel e livros roubados da biblioteca. Mas o mais estranho de tudo é que é apenas saudade. Não existe mais aquela vontade de ser jovem de novo, seja lá o que isso significa. Sim, é apenas saudade.

Vejam vocês que ironia amarga: foi preciso o John Hughes morrer para eu me dar conta de que a adolescência acabou.

Mas isso não me impede de ouvir uma vez mais If You Leave do OMD e rezar por uma das pessoas que mais me influenciaram na vida.

6 Respostas para “A adolescência acabou”

  1. Tatiana Bandeira Disse:

    Caramba, que belo, belo texto. Como os filmes dele.

  2. Pensar Enlouquece, Pense Nisso. Disse:

    Save Ferris! Save Hughes!…

    Todos aqueles que cresceram tendo a TV como babá eletrônica e assistiram a filmes como Curtindo a Vida Adoidado, Mulher Nota 1000, Clube dos Cinco e A Garota de Rosa Shocking acordaram um pouco mais tristes e envelhecidos na manhã de hoje, depois de as…

  3. R.I.P. John Hughes « Psychocandy Disse:

    [...] R.I.P. John Hughes Este não será um grande post ou algo assim. Não acho que tenha um bom texto sobre John Hughes em mim, mas de qualquer forma achei que não deveria deixar a morte dele passar em branco. Quem escreveu um bonito post foi o André Takeda. [...]

  4. nina Disse:

    acho que são essas coisas bacanas – filmes, musicas, livros – que tornam a adolescência bonita e mais tarde nos deixam com essa saudade que da qual vc fala.
    mas acho também que é bom conservarmos um pouco dessa fase depois de “velhos”!!

  5. Denis Disse:

    “John Hughes foi o meu James Joyce. O meu Machado de Assis. O meu Velvet Underground. O meu Sex Pistols” faço minhas as suas palavras, permanecerei de luto por algum tempo, tanto por Hughes, quanto pela minha adolescência que, agora, se foi junto com ele…

  6. Mark Disse:

    acho engraçado uma coisa..
    seu livro que me faz me sentir dessa forma que voce diz.

    clube dos coraçoes solitários.

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